Criado como forma de catarse, sem o objetivo de agradar nem ofender, apenas colocar pensamentos de uma mente "em cacos" para, com isso, encontrar aquele caco mais brilhante, digno do olhar dos deuses!

domingo, 19 de julho de 2009

Carta Inútil

Suplemento Literário, Diário Mineiro, 18 de Abril de 2009

Carta Inútil

Sei que é estranho começar uma carta sem vocativo, mas esta assim se faz necessária. Em primeiro lugar por que sempre cumpri à risca minhas promessas, e cumpro a que lhe fiz, na última vez em que nos vimos: a de jamais voltar a pronunciar seu nome. Embora, paradoxalmente, quebre a outra jura feita naquele mesmo dia - a de que iria lhe esquecer. E você não sabe o quanto me custa admitir isso, mesmo que por escrito, mesmo que em particular, mesmo que em pensamento. Dói-me dizê-lo. Mas é a verdade, e contra ela já desisti de lutar. Não há mais fuga para o que sinto, embora essa impossibilidade não torne a confissão mais leve.

Pouparei seu tempo - que julgo precioso ao contrário do que você dizia. Sempre valorizei muito seu trabalho, mesmo que isso significasse uma submissão do meu ser. Quantas vezes não fui deixado em segundo, terceiro plano? Mas ao contrário do que você pensava, eu me sentia, sim, orgulhoso de tê-la ao meu lado. De apresentá-la a meus amigos e poder dizer que além daquilo que eles viam- sua magnífica beleza exterior e natural- de quebra você era independente, bem sucedida, culta – a típica mulher do século XXI, que independe de seu macho para existir. E a apresentava só por protocolo, por educação, pois todos conheciam a jovem que escrevia nos jornais tão perfeitamente, com estilo único. Todos conheciam a promessa que você era. Sentia, a bem da verdade, meu ego inflar-se a cada vez que lhe apresentava como jornalista, como “a” jornalista e, acima de tudo, como minha noiva; como minha, embora você nunca tenha se deixado possuir inteiramente, nunca tenha me deixado dizer que você era “minha”, mesmo que em tom carinhoso, sem uma avalanche de protestos e sermões sobre o fato de ninguém ser de ninguém, e aquelas palestras de 15 minutos sobre o machismo. Coisas que deixavam você incrivelmente mais atraente. Coisas das quais sinto falta. Você era, e creio ainda ser, uma mulher bela, inteligente e extremamente sofisticada e determinada. Orgulharia qualquer homem que estivesse ao seu lado. Como me importar então que não tivesse muito tempo para mim? Bastava saber que você o tinha, nem que fosse pouco, nem que fosse uma hora por dia. Já era motivo de honra. De me vangloriar, de me sentir o melhor de todos. Mas seus atributos não vêm ao caso agora, mesmo porque, você os conhece melhor do que ninguém.

Pouparei seu tempo, dizia eu, e a privarei de ter de enfrentar linhas e linhas de um melodrama barato e talvez copiado de outros livros, desses que vendem na banca à preço miserável, que se espelham em novelas mexicanas. Não isso não combina com você, e nem comigo. Não combina conosco. Embora o “nós” não exista mais, quem dirá o “conosco”. Não, não direi como me senti depois daquele dia, como foram meus dias e minhas noites depois de tudo. Poupo-lhe disso. E posso até ouvi-la me agradecendo. Na verdade, provavelmente, a muito você já parou de ler essa carta. E, caso contrário, se ainda a lê, o faz gargalhando a cada palavra lida. Se sou capaz de me lembrar de sua beleza e inteligência, confesso não ter me esquecido de seu sadismo e frieza. E a cada letra que a caneta desenha nessa folha, sou capaz de vê-la abrindo a boca, jogando a cabeça pra trás, deixando que os cabelos corram soltos pelos ombros, e rindo alto, excitada, como só você sabe fazer, naquele seu gesto tão característico. Aquela risada que só você dá. Como só você faz quando quer ridicularizar alguém.

Mas não, não me julgo ridículo. Já disse, não há motivos para isso. Estou plenamente convencido de que, se há de fato um erro em tudo isso, ele não cabe a mim. Ou não apenas a mim. Haverá uma culpa, afinal? Haverá um motivo? E se há, ou houve, peço que me responda. Sério. Não se trata de uma tentativa desesperada de querer estabelecer um contato com você. De querer que você me responda. Não, quero apenas tentar entender o que se passou entre nós. Quem sabe assim eu não possa parar de me sentir assim. Quem sabe eu não possa parar de sentir? Me libertar de uma vez dos nós que me prendem a você. Dos fantasmas do passado, para usar um clichê. Peço, de novo, e humildemente, como talvez nunca tenha sido com você antes, peço que me explique, se você entendeu o que se passou. E, principalmente, se você, depois de tanto tempo, foi de aceitar. E aqui, imagino que você pare de rir. Me enganei? Acho que não. Não ouço mais seu sorriso torpe. Não vejo mais seus dentes perfeitos. Sua cabeça já não pende para trás. Ou você ainda insiste em ignorar? Ainda se recobre no casco e se afunda por trás da fortaleza de que recorre quando não quer falar, não quer ouvir, o que as pessoas tem a lhe dizer? Fortaleza essa que nós conhecemos bem. Fortaleza essa, que você sabe tanto quanto eu, é falha. Serve mais como enfeite do que como defesa. É estética, não é prática. É arquitetura, não é defesa. É alvenaria, não é rocha sólida. Não é eficiente. É Falha, já disse. Aliás, como tudo em você. Falha e dissimulada. Sempre invejei essa capacidade que você tem de ocultar o que sente. De se fazer passar por algo que não é. Quantas vezes você chorou escondida no meu colo? Quantas lágrimas só eu vi? E quantas pessoas não te achavam forte, impassível? Mas não, você era emotiva. Só disfarçava bem, desconfio que só é fria comigo. Minha Capitu, poderia dizer.

Não, não quero ofendê-la (mais). Não foi pra isso que me prestei a esse papel, ok, vá lá, ridículo - assumo agora, apesar de ter desmentido anteriormente. E, no fundo, não me importo com o como serei tachado por você. Afinal, você já deixou bem claro que não me considera nada de especial. Que não vê em mim nada que me configure como homem. Sou, segundo você, covarde, besta, ignorante e machista. Pode ser, mas se for assim, pior é você, que foi noiva de mim por tanto tempo. Pior é você que foi deixada por mim. Ou teria sido eu o deixado? Não sei definir quem deixou quem. Não sei definir como acabou. E se não fosse por você, não saberia definir se acabou. Tudo sempre foi muito indefinido entre nós. Seria esse um bom motivo?

Verdade também que, desde nossa separação, dizem que eu estou melhor, mais feliz. E creio que você ouve os mesmos comentários. Insinceros talvez. Reconheço que muitos são parte da boa e velha etiqueta, da desesperada tentativa dos amigos de nos estimular. Dizem coisas encorajando-nos, e por trás, sentem pena, chamam-nos coitados, lastimam nossa sorte. Mas dizem em nossa presença frases feitas: A vida continua! Ela não era tão boa! Esquece, já foi! Será? Será mesmo que é tudo tão simples e tão banal? Será que já fomos? Já. Fomos um casal, fomos cúmplices, fomos amantes, fomos completos, fomos muitas coisas, mas posso resumi-las dizendo que fomos felizes. E você tem de concordar comigo, por mais que isso doa em você.

Também não vou falar das noites que passamos juntos. Da falta que o calor do seu corpo me faz. Da falta do seu cheiro, da sua língua, do seu cabelo encostado no meu peito. De acordar com você assim, linda, mesmo quando antes de escovar os dentes. Mesmo quando acordava despenteada, e xingando palavrões porque perdera a hora. Não, não vou falar disso. Mas, uma coisa eu falarei, e agora, será apenas para me auto-afirmar. Para tentar parecer menos submisso a você. Tentar achar que você perdeu tanto quanto eu. Tentar não passar a imagem de alguém que se arrasta e suplica perdão. Se é que minha imagem ainda pode ser salva. Lá vai: Eu era bom de cama! E você já admitiu isso várias vezes. Não importa que vá negar ao ler, ou que ria com escárnio. Se de todo não sente falta do meu cabelo, do meu cheiro, dos meus palavrões. Sente falta do meu corpo. Do nosso sexo. E, isso de certa maneira me conforta. Saber que, alguma coisa você perdeu. Claro, você arrumou outro, desfila com ele todos os dias, e ele pode ser tão bom quanto eu. Mas melhor, me recuso a acreditar. E peço, que se ele for mesmo melhor, não me conte. Não estrague em mim a única vantagem que eu tenho sobre ele. Não corte a esperança que eu tenho. Não me negue a vitória primária entre a competição masculina. Entre machos que disputam a mesma fêmea.

Gozado que, ao escrever, começo a acreditar em muita coisa que você me dizia antes. Vejo, por exemplo, que você tinha razão quando dizia que eu usava períodos muito longos nas frases, e que não conseguia completar uma idéia. Que eu era vago, prolixo, inconclusivo e, muitas vezes, repetitivo. Ok. Assumo. Sinto saudades de você corrigindo meus textos, como se fosse uma professorinha de colegiado de antigamente, com saia, óculos e rabo de cavalo. Não, essa definitivamente não era você. E não posso deixar de rir ao imaginá-la assim. Pode ser que seja um fetiche meu, quem sabe? Sempre gostei de colegiais, e professoras não fogem da idéia. Lembra daquela fez que você se fantasiou pra mim? Mas já disse que não falarei disso. Falemos da realidade, do hoje. E se tenho que pensá-la como magistrada, sua imagem real como pedagoga seria algo que relacionasse medo e palmatória. Castigo. Isso define você. Castigo, vingança e frieza. Dor. E, apesar de tudo, apesar de ofendê-la, de saber quem você é, eu ainda escrevo essa carta.

Escrevo como pedido, de que me explique. Acho que já disse isso, mas tenho preguiça de reler. Então peço – novamente, ou pela primeira vez- que me responda se você desvendou nosso fim. Se faz sentido pra você. Não, não quero seu perdão, e não quero voltar. Quero só o entendimento. Disse que não lhe contaria como foram meus dias depois daquilo, mas, vou me desmentir mais uma vez. E, penso que, se você leu até aqui, é porque ainda nutre algum sentimento por mim. Nem que seja desprezo, como tantas vezes já me jogou na cara. Nem que seja para saciar a sua curiosidade de jornalista. Aliás, bem feito. Fiquei sabendo que não se exigem mais diplomas para ser jornalista. Tomara que perca o emprego. Seja substituída por uma veterinária, por uma engenheira, ou qualquer outra que não tenha nada a ver com jornalismo. Quem sabe uma professorinha de primário? Com saia, óculos e rabo de cavalo. Não seria má idéia te substituir. Não quero seu bem. Não torço por você. Não quero que seja feliz com ele. Quero sua desgraça, sua derrocada, sua queda. Não que isso me torne mais feliz, mas isso te igualaria a mim.

Passei dias maravilhosos no começo. Você deve saber, sempre teve muitas amigas cujo passatempo era informar-lhe sobre o que eu fazia. Encontrei com muitas em festas e boates. E ia sempre às festas que elas iam, de propósito. E fazia questão de cumprimentá-las. De passar na frente delas rindo, de exibir cada noite uma mulher ao meu lado. Como se gritasse silenciosamente para elas: “Olha como eu estou bem, olha como ela não me atinge, olha como estou me lixando pra ela, olha como não preciso dela!”. E sei que elas te contaram tudo, sei que alcancei meu objetivo. Como sei também que você passou a fazer o mesmo, embora menos que eu, e de forma mais discreta. Como cabe a alguém com sua classe. Não, você não virou uma piranha. Você não se rendeu à futilidade e à idiotice as quais me rendi. Você não ficou parecendo, igual a mim, um idiota infantil, um pré-adolescente fazendo ceninhas de ciúmes. E por isso, te odeio. Por que você foi sem mim, o que era comigo. Digna. Perfeita. Em momento algum nossa separação parecia ter te abalado. A fortaleza ali, segura, firme. Mas, nem assim eu acreditei. E até hoje me pergunto quem terá te servido de ombros, uma vez que os meus permaneciam secos. Pode ser que não quisesse reconhecer que você era, de fato, melhor que eu. Passo a achar que nunca te mereci. Chego a pensar em pedir-lhe desculpas por ter sido seu noivo. Por ter maculado sua tão nobre vida. Sua perfeita vida, com tudo de podre e de lixo que eu sou. Mas não peço. Por que sei que, embora pareça, e eu tenha contribuído para isso, nós dois sabemos o meu valor. Não, eu não sou pior que você. E você sabe, embora não vá reconhecer.

É verdade também, que naquele dia em que eu bebi de mais – assim como hoje... Pronto! Achou a justificativa pra carta? Seu cérebro de máquina achou agora um fato lógico pra considerar, em detrimento das emoções, que suspeito, não se dão muito bem com você. Sim, estou levemente bêbado. Levemente. Ainda consigo organizar as frases e não ataco sua amiga, a sintaxe. Naquela noite eu vi você na festa com ele - cujo nome também me recuso a citar, e que hoje ocupa meu lugar (fiz rima, você chamaria de eco, diria que é um erro, transgressão, defeito, sei lá o que mais). Retomo, o período ficou longo, me perdi no que ia dizer, não sou nem mesmo capaz de dizer qual o sujeito da oração. É período composto né? Nunca soube. Nunca precisei. Você sim. Mas, mais uma vez você tem razão, eu me perco em minhas falas. Retomo, dizia que naquela noite em que fiquei tonto e te vi com ele, perdi a cabeça. Óbvio. Você sabe disso. Você estava lá e viu minha idiotice. Não preciso contar, mas o faço. E você deve se lembrar de mim, correndo na direção dele, berrando nem lembro o que (acho que nem eu entendia o que eu tava dizendo, minha língua enrolava, eu babava, cuspia), determinado a acabar com ele. A matá-lo se fosse preciso. E teria feito isso, se não tivesse tropeçado nos meus próprios pés e caído no chão antes de chegar perto dele. Se não tivesse virado a chacota da festa. Se não tivesse sido carregado de lá enquanto todos riam de mim, do babaca, do palhaço, da besta. E confesso que só soube depois, quando me contaram, que todos riram de mim, inclusive ele. Sabe por quê? Por que naquela hora, enquanto todos riam, o único sorriso que eu via era o seu. O pescoço tombado pra trás, a gargalhada alta. O dedo em riste pra mim... E nem assim, me ridicularizando, fui capaz de te achar menos bela.

Enfim, depois de tudo que disse não me dói mais confessar o que pensei quando cheguei em casa naquela noite, ainda bêbado. Não fará diferença mais uma ou menos uma confissão. Quantos pecados ainda terei que contar? Qual será minha penitencia? Quantas ave-marias, quantos pai-nossos? Quem sabe um salve a rainha? Um Salve a você, soberana poderosa e cruel que subjuga todos ao seu redor? “Majestade perfeita”, “Imperatriz da competência”? Senhora suprema da ironia. Viu? Ela não tem tanta graça usada contra você não é? Enfim, naquela noite, eu pensei em terminar com tudo. Em acabar com esse tormento, com essa, desilusão? Posso chamar assim esse problema sem resposta? Cheguei a destampar o frasco dos remédios e ia tomar todos de uma vez – O que os soníferos faziam na minha estante? Já tomava um por noite, porque (mais um pecado confessado) eu não dormia mais direito há um bom tempo, e a eles recorria. Não consegui. Óbvio, você dirá. Você é covarde. É idiota. Sou um verme não foi assim que você disse? Pois é, eu sou. E não fiz. Mas também, por achar que você não merecia minha morte. Você não merece nada, aliás. E sei que, para você, minha morte seria um alívio. Você não teria que pensar em nós todos os dias, e não buscaria desesperadamente as mesmas respostas que eu busco.

No entanto, agora que já me alonguei demais e propositadamente, posso ser mais sincero. Sair da minha máscara de ironia ou de vítima. Assumo agora a razão única pela qual escrevo a carta, não sei se é de fato um pedido de explicação. É antes um outro pedido. Mas esse ficará nas entrelinhas. Não será nunca pronunciado por mim. Tenho horror dessa palavra. Pra mim, ela soa como humilhação, até rima. Comiseração, humilhação e... E não peço claramente, mas sei já fui muito claro. Você já entendeu que eu sim, ainda penso em você todos os dias, todas as horas. Que eu não te esqueci. E aqui entram todos os outros clichês possíveis. Que ainda tenho ciúmes do imbecil ruim de cama que desfila ao seu lado. Que eu ainda me acho superior e o melhor homem para estar com você. Que esse lugar é meu e ninguém mais pode ocupar. Mas não vou falar isso. Nunca assumirei mais do que disse nessa carta e, agora é você quem se senta no genuflexório ou no confessionário, onde for mais confortável para você, e confessa. Assume. Pede misericórdia. Confessa que já entendeu o que eu quero. Já ficou óbvio. E, por isso, acho que posso encerrar a carta.

Mas, assim como não a iniciei com seu nome, poupo-me de assiná-la. Se não há o seu nome, não há por que ter o meu. No fundo, pra mim, um nome não pode existir sem o outro. O meu e o seu. Mas, se de todo, você terminou de ler a carta só por escárnio, possibilidade que eu não descarto, embora se confirmada, me aniquilará. Destruirá tudo que ainda sobre de mim, e se inteiro eu já era um verme, um lixo, em pedaços não consigo imaginar o que serei. Talvez ainda tenha alguns comprimidos. Quem sabe? Não, não é uma ameaça. E arrependo-me de ter escrito isso. Ignore essa frase. Ela não adiantaria com você mesmo. Você gostaria da minha morte, seria seu sossego, e sossego é a única coisa que eu não posso te dar no momento. Se, de todo, a carta não surtiu o menor efeito, o que é uma pena, por que eu realmente me esforcei. Rasgue-a. Ponha-lhe fogo. Não sem antes cuspi-la e escarrá-la. Melhor, dou-lhe uma idéia. Publique-a no seu tão amado e idolatrado (Salve!Salve!) jornal, enquanto não é substituída por uma professorazinha de filme pornô. Como uma crônica, sei lá, pode até dizer que foi você quem escreveu. Não quero que ela seja rasgada, queimada ou coisa assim. Seria esforço demais pra nada. Prefiro antes que seu desprezo por mim, se existente, seja escancarado. Berrado em praça pública. Publicado em Jornal. No entanto, se publicares, poderei achar também que você ainda nutre uma admiração por mim. Pelo menos escrevo bem. Talvez vire escritor. Quantos corações partidos já não se dedicaram à literatura? Não é a decepção a mola impulsionadora da poesia? Se publicar, poderei achar que você, assim como eu, procura uma resposta. Resposta que poderá vir dado por algum leitor atento. Suplico-lhes isso, aliás. Se lerem, tentem me explicar. Tentem explicar. Tentem. É só o que peço. Mas, se eu ler a matéria no jornal, não saberei o que você sente. Desprezo? Ou ainda sente o que sinto por você, e por isso leu a carta até o final? Jamais saberei. Não, não publique. Rasgue. É melhor a certeza do desprezo que a dúvida amorosa. Ou não, publique a carta sim, se o seu autor não pode alcançar os objetivos dela, suplico que ela não morra. Que a obra fique viva, mesmo com o autor em pedaços. Publique-a com o título de Carta Inútil, se assim ela for pra você. Entenderei o recado. O meu está dado. Não assino, deixo apenas, três palavras, que resumem: a carta, eu, você, a confissão e nossa história, mesmo que inutilmente:

Ainda te amo.


João Lúcio Xavier

sábado, 18 de julho de 2009

Inconclusivas linhas crescidas de mim


Ainda que o busque a cada dia com um empenho único, começo a ver que saber-me- ou reconhecer tal sabedoria- é muito mais assustador do que admito. Certamente preciso ter em mim aquilo que me faz ser o que sou, mas entender o significado disso pegou-me desprevenida e, sem mais delongas, assombrou e tomou minha alma nessa tarde calma e morna de julho.

Ser-me dói um pouco todos os dias, mas entrar nisso foi quase insuportável. Não digo que descobri tudo, não o poderia, mas percebi em mim uma vontade genuína de ser e não estar. Saber, deixar as adivinhações pra quem se dedica a faze-las. Hoje sou a mesma de sempre, ou talvez seja outra completamente diferente, a verdade é que sinto-me como ao sussurro suave da brisa que embalou meu dia no balanço infantil de um brinquedo simples de ir e vir e querer voar.

Não dedicarei tempo, imaginação e folhas pra dizer quem habita essa massa identitária que leva meu nome. Não perderei nem mais um instante nesse vago trabalho de me justificar a mim. Escrevo apenas por ser esse meu prazer e hobbie mais sincero. Finalmente escrevo de mim pra mim, sem pretender alcançar ninguém, sem pedir que entendam, sem cobrar algo a quem tem nada.

Também não me peço a arte sublime de escrever como os autores que me inspiram. Dedico-me à simplicidade ingênua de defender uma teoria própria que talvez só se aplique a mim. Auto-conhecimento, conceito tão cobrado, difundido, enaltecido e creditado a mentes que, certamente, não posso competir. Auto-conhecimento, tudo aquilo que me foge e me atormenta por estar aqui e não estar, por ser tão visível a olhos que não são os meus. Auto-conhecimento, exatamente o que não preciso mais, não explicitamente, não declaradamente; quero tê-lo sem saber que tenho e mostrá-lo sem que o percebam. Teria alguém sugestão ou regra que me ajude a alcançar o que almejo? Acho que não...

Sempre fui inconclusiva e isso marca, ao meu ver, boa parte de minha “obra” (coloco entre aspas por não achar competência suficiente para me dizer escritora). Deve ser porque trago o que escrevo pra muito perto de mim, do que penso ou sinto ou vivo ou acredito viver. Fato é que, nesse exato momento, não acho palavras ou dogmas que preencham mais linhas desse texto. A falta de objetivo devorou possíveis idéias que pudessem me socorrer nessa falta de léxico e semântica absurda. Termino, pois, minha matéria discursiva, sem moral e, muito provavelmente, sem sentido. Não espero nada e me sinto feliz por apenas ter podido ter essas linhas tão mais crescidas que eu.


Isadora Perdigão

terça-feira, 7 de julho de 2009

Deserto

Necessidade burra de se envolver no que não devia. Como ser tão baixo a ponto de não saber ficar sozinho? Não saber ser sem um outro em quem se apoiar. Ninguém por perto, coração a mil, deserto ao redor. Não, ele não sabia agir assim. Chorou.

Ela era azul? Não. Ela estava de azul e era linda. Não podia ver seus olhos, mas adivinhava-os negros como os cabelos agitados ao vento. Sua boca inacessível abriu-se em um sorriso que o cegou, tamanha beleza e brancura havia naqueles dentes perfeitos. Ela era toda perfeita.

Ele a conhecia. Deus, ele a conhecia! Mas será mesmo que aquela visão era real? Parecia miragem de um desesperado por, por qualquer coisa que lhe desse um pouco de calor- diria colo, mas daí ele seria triste, carente demais e sou contra exageros. Decidiu-se pela miragem. Seguiu em frente.

Tropeçou, adiante, com os olhos, novos conhecidos, e teve que parar. Parou e achou que a queria. Era loucura, mas ela sorriu. Por que sorrira? Ela não sabia que acabara de prende-lo e perde-lo. Ele não ficaria, não suportava, não podia com esse não. Chorou.

O sorriso sumiu, as mãos macias tocaram seu sofrer e o aqueceram. Uma pergunta inocente perdeu-se no espaço e ele a abraçou. Não um abraço de amigo, não um abraço de amante, um abraço de amor que ficou.

Ela não entendeu e deixou. Não se envolveu com ele nem o quis, mas deixou-se estar e isso valeu. Valeu pra ele como o beijo que não pôde dar, como o encontrar-se que não chegou. Ela valeu, naquele momento, o resto da vida dele.

Isadora Perdigão

domingo, 28 de junho de 2009

Serenata sem estrelas


Só como um cantor
Vejo a noite cair
Debaixo dos meus pés
Como um edifício cai
E eu quisera ter
A música do mar
As frutas do pomar
Antes da chuva vir

No out-door luminoso
A vida a mentir
Nenhuma estrela mais perto dos olhos
Ninguém
Ecos de um rádio antigo
Eu penso ouvir
Um cigarro um segredo e nada além

Quanto mais ando mais perco
Teu rastro armadilha na estrada sem fim
Choro em silêncio a dor
Sofro mas nem a lua tem pena de mim
Sei mais caminhos que os meus sapatos
Na escuridão esperava por ti
Mas ontem rasguei teu retrato
Te matei e dormi

Zeca Baleiro

domingo, 21 de junho de 2009

Cacos


Mais uma vez ela recorria ao maço de cigarros. Fora outra noite sem dormir, outro almoço sem comida, outro dia sem sentido na sua vida. O cansaço tomava conta de toda ela. Era difícil pensar, era difícil respirar, era difícil demais. E o pior de tudo era se sentir tão miserável, tão ridícula naquele papel triste de vítima. Como aquilo a irritava...

Ela estava sozinha em seu apartamento e, apesar do dia ensolarado, ela continuava com seu pijama de flanelas e aquele cobertor velho. Não havia se penteado ou escovado os dentes. Não sabia que horas eram e só conseguia ficar ali, sentada no chão frio fumando, pensando, chorando.

O cheiro dele estava em toda parte. Sua voz ecoava pela casa desarrumada e se fazia presente em cada pedaço da cabeça dela. Ela deixara tudo exatamente como estava quando ele partiu. Havia poeira nos móveis e o sofá continuava fora do lugar habitual. Os cacos da briga a encaravam como fantasmas, ela não podia se mover, ela não conseguia parar de rever aquele show de horrores.

O cigarro acabou, fez como no dia anterior, ligou para o porteiro que lhe trouxe um maço novo em questão de minutos. Abriu a porta para ele, encarou sua piedade e cuspiu-a dali. Não precisava daquilo, era humilhação demais, era triste demais. Fechou a porta. Voltou pro mesmo lugar e recomeçou a encarar o vazio. Seu problema? O vazio estava cheio de toda merda que ela disse. Que erro... Que erro!

Gritaram seu nome, era ele, era ele, ela tinha certeza. Levantou-se, correu pelo apartamento, ele não estava lá, ele se fora. As lágrimas voltaram sem que ela percebesse, já havia se habituada a elas. Sentou-se de novo e sentiu o coração parar. “Essa foi nossa última... A última!” Ele se fora. Pra sempre.

A realidade pesava nos seus ombros. Como aceitar que aqueles anos se foram nos minutos da noite anterior... Seria a noite anterior? Ela não fazia idéia! De que valia o tempo? De que valia qualquer coisa? Ela era nada. Sem ele, ela era nada. Alguma coisa lhe dizia que ele voltaria, ela deixou tudo do mesmo jeito. Ele voltaria e a encontraria ali onde a deixara.

“Se você sair é melhor não voltar! Eu cansei de te esperar, cansei de me deitar no chão sempre que você vai embora. É melhor NÃO VOLTAR!” Por que ela havia falado aquilo? Por que ela não deixou que ele voltasse? Ela não era tão forte quanto queria parecer, ela precisava dele, precisava. Ela o amava.

Um ruído na porta fez seu coração voltar a bater. Era ele, lindo, na porta. Era ele, era... Era sua mãe implorando que ela saísse de casa. “Não, ele vai voltar. Eu estou esperando meu amor voltar, ele vem...” A mãe chorava, a filha pirava e fumava, fumava como o demônio e delirava como uma louca. A mãe tentou aproximar-se, parou no meio do caminho, ela estava gritando. Ela estava chorando. Ela estava sentindo demais. A mãe chorou baixinho e saiu. Ela estava sentindo demais e a mãe não podia ajudar.

Quando voltou pro seu lugar ela pisou num caco de vidro. Era um caco lindo. Era um caco brilhante. Era um dos muitos cacos dela que se espalhara pelo chão. Ela encarou o caco. Ela pegou o caco. Ela se matou com o caco mais brilhante. Ela se matou com o caco do que era. Ela se matou com o caco dos deuses. Ela morreu pelo caco mais brilhante, o maior, o mais afiado e perigoso de todos os cacos. Ela sangrou por aquele caco de vidro. Ela não foi mais encontrada. Sua alma se fora, se fora com os deuses que cobiçavam seu caco brilhante, perigos e afiado.

Isadora Perdigão

sábado, 13 de junho de 2009

Lembro

Lembro-me de um tempo em que o tempo não existia, era algo cujo sentido de perdia em meio às conversas de minha mãe. Sem o tempo as lembranças se formavam sem saber e por isso, hoje, são sinceras e completas em um presente confuso, cheio e vazio demais de tempo.

Lembro-me também de um tempo, não tão distante, em que quis acreditar na benevolência deste que se torna quase um inimigo: escrevi sobre o tempo. Naquele dia as palavras eram doces, cheias de certeza e sonhos e esperança nesse médico invisível apregoado por vovó. Ah, o tempo!

Lembro-me de mim tão inocente, tão sabida dessa vida que nem sei. Como pude me iludir e como deixei passar? Era bom me sentir segura dentro de uma mentira não declarada de quem sou. Na verdade, ainda quando achava que encontraria respostas, era melhor, era um tempo bom.

Lembro-me, agora, que o tempo importa e ele existe, tão pesado existe que cresci- talvez rápido demais- e já não posso ser minha lembrança. O que perdi pro tempo só ele vai me contar- se contar- quando eu puder e souber lidar com a verdade que isso traz. O que ganhei do tempo está intrínseco em cada minuto, está em cada palavra em todas as outras e em cada piscar de olhos, luzes e tempo. Quando finalmente me esquecer do tempo talvez perceba a irrelevância das minhas rugas e encontre, nos fios brancos dos meus cabelos, o que busco hoje: EU.

Isadora Pedigão

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O ovo e a galinha (recorte)



A um certo modo de olhar, há um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então, não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal.

Clarisse Lispector